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O Retorno - Clube do Champanhe

O Retorno

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O Retorno

 

O sol nem bem nasceu, e eles estavam prontos.

— Vão com Deus, meus filhos... – eu disse, como se pudesse enganar a mim própria. Mas, para minha falta de sorte, é impossível: creio que a seleção natural se sobrepõe a qualquer manto de Oxalá ou proteção divina. 

Tamanho era o entusiasmo das crianças, que nenhuma hesitação se apercebeu das minhas reticências. Correram para o portão da escola como um barco de velas infladas que se deixa levar pelas mudanças dos ares. Eu fiquei, ancorando ao meu peito o (e)terno peso dos filhos. 

Antes eu os levava, pelas mãos, aos cuidados dos seus professores. Mas agora desbravam sozinhos o percurso de escadas até as portas das suas salas de aula. Ainda parada na rua, em frente à escola, imagino-os ultrapassando os corredores orientados por setas adesivadas ao chão, como faziam os navegadores com suas estrelas e o céu. Viro as costas e decido também seguir o meu caminho, na torcida de que nenhum pirata invisível vá saquear a saúde dos meus. 

Tivemos bons momentos, nos seis meses em que ficaram sem aulas presenciais, mas era impensável um início de ano letivo sem que reencontrassem fisicamente os amigos e os professores. Eu também já receava que a elasticidade dos seus cérebros enrijecesse ao limite das portas e fechaduras de casa, e, mais tarde, não se consertassem como fazemos com os slimes quebradiços, onde um bocado de hidratante e soro fisiológico lhes devolvem a fluidez. Deixei-os, acreditando que a plasticidade e a beleza da massa cinzenta das minhas crianças precisam ser moldadas no saber da escola, e com o convívio dos seus pares.

Restamos a sós: o meu notebook e eu.  E algumas pessoas, a quem eu descaradamente devia e-mails, receberam suas respostas sob cânticos gregorianos de Aleluia. Depois,  tracei as prioridades do dia, do mês e do ano, cruzei com gráficos analíticos baseados no preço do arroz, quilos a emagrecer, metas de vida e reencarnação. O trabalho foi tão produtivo, que eu quase enxerguei meu retorno ao  cargo de CEO da minha existência.

Mas restava um vazio estranho, e eu imaginei estar surda. Por que não se escuta o estalar de agudos, os gritos e pedidos de vida ou morte antecedidos do prefixo mãe? Ou manhê, mamá, mamãe, mamãezinhaqueridadomeucoraçãoporfavor? Eu havia redescoberto o eco do nada. Procurando compreender o som do silêncio, tomei por certo que Simon & Garfunkel não tinham que lidar com crianças barulhentas. 

O tempo voltou ao seu estado natural de ser infinito e renovável, e fui celebrar a minha maioridade almoçando com outro adulto, discutindo assuntos adultos e comendo o que havia de mais adulto no cardápio – salada de chicória com anchovas e couve-de-bruxelas. Preciso acrescentar que a refeição ocorreu sem que nenhum talher fosse ao chão.

Confio na disciplina dos Portugueses como se fosse uma promessa de terra à vista. Mas é impossível  prever como será o retorno às aulas em tempos pandêmicos. E se uma grande onda atingir as nossas crianças?

Depois de tanto esterilizar os dias não é fácil entregá-los à desassepsia da vida e correntes marítimas. Talvez o convívio escolar possa ser mantido, ou quem sabe a maré de otimismo não alcance o calendário que cabe em um mês. Ao buscar os meus filhos, desejei outra vez que uma força sobre-humana lhes pudesse proteger. Reencontrei-os como são as crianças nas propagandas de sabão em pó: ungidos e amarronzados de terra; protegidos por um manto de brilho, sal e suor; abençoados de gente e saber; e enodoados da alegria de retornar às suas rotinas  – crentes em livros e devotos aos lápis de cor.  

 

Foto: Oliver Hale



Autor(a): Alice Maria de Medeiros



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